Anexo II - Encontro Redelabs (2010)

4. Anexo II: Encontro Redelabs (2010)

Em novembro de 2010 celebrou-se na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, a segunda edição do Fórum da Cultura Digital Brasileira. Era um evento internacional organizado pelo Ministério da Cultura e pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), e articulado em rede através da plataforma colaborativa CulturaDigital.Br. O Fórum acontecia em um momento de grandes expectativas para a cultura digital no Brasil: estava no ar a impressão de que a rede que havia construído a própria ideia de uma cultura digital brasileira teria enfim uma representação institucional capaz de consolidar os muitos avanços obtidos com dezenas de experiências pontuais nos anos interiores.

Um dos temas em debate durante o Fórum eram os laboratórios de cultura digital experimental. Desde abril daquele ano, a Coordenadoria-Geral de Cultura Digital do Ministério investira esforços em entender o cenário de fronteira entre arte, tecnologia, ativismo, educação e inovação no Brasil. Preparava então o lançamento de um edital de bolsas de cultura digital experimental, voltado a resolver algumas das demandas encontradas durante as conversas com diferentes atores durante aqueles meses. Buscava também entender qual seria o papel do próprio Ministério da Cultura dentro do universo de possibilidades no qual aquele cenário se desenvolvia.

Dentro desse eixo de desenvolvimento, já então denominado “redelabs”, o Fórum contaria com dois momentos importantes: um encontro de labs brasileiros e um painel internacional sobre labs.

O painel internacional aconteceu no último dia. Teve a presença do finlandês Tapio Mäkelä contando sobre suas experiências com festivais, encontros e laboratórios de mídia em diversos contextos (inclusive dentro de um barco no mar Báltico). Em seguida, o húngaro Barnabas Malnay contou sobre as atividades do Kitchen Budapest, financiado por uma grande empresa de telecomunicações na Hungria. Por fim, o espanhol Marcos Garcia contou sobre o desenvolvimento do Medialab Prado de Madrid, um dos centros mais importantes trabalhando nos contatos entre produção experimental, dinâmicas sociais e urbanas, e tecnologias. Todas as falas foram comentadas por três respondentes que buscavam promover o diálogo entre as apresentações e o contexto brasileiro: Paulo Amoreira, professor universitário e coordenador do Cuca Che Guevara de Fortaleza; o curador Daniel Gonzalez, criador dos encontros AVLAB; e Miguel de Castro Pérez, então assessor de cultura digital do Centro de Cultura Espanhola de São Paulo1.

Já o encontro de labs brasileiros aconteceu no primeiro dia do Fórum. Cerca de cinquenta pessoas vindas de todas as regiões do Brasil (do Pará ao Rio Grande do Sul) e envolvidas com contextos institucionais muito diversos participaram de uma conversa aberta. O formato escolhido foi o de microapresentações: pediu-se a cerca de 12 convidados que fizessem apresentações de cerca de sete minutos, após as quais todos os presentes poderiam comentar livremente.

A conversa estendeu-se por horas, e ainda assim a presença foi alta até o final. Todos tinham alguma coisa a falar. Houve momentos em que surgiu conflito quase irreconciliável que refletia, naturalmente, condições do próprio cenário que não costumavam ter lugar para ser expostos. Inaugurava-se assim um espaço de debate que, envolvendo desde artistas independentes até coordenadores de programas em instituições com grandes orçamentos, era (e ainda hoje é) raríssimo.

Infelizmente, o contexto institucional do ano seguinte acabaria por inviabilizar a justa expectativa de aprofundar aquelas conversas. Seguem abaixo algumas anotações e trechos de transcrições a partir da íntegra das mais de quatro horas de gravação de áudio daquela tarde2, que ajudam a demonstrar a riqueza desse tipo de conversa e a importância de garantir que seja retomada e desenvolvida a pleno.

4.1. Anotações e transcrição de trechos do registro em áudio do encontro Redelabs (2010)

4.1.1. Apresentações

  • Redes de mobilização/ Instituto Sérgio Motta – Giselle Beiguelman

  • Eita, Porra – Jeraman

  • Dubversão, Lab C, AECID, Anilla Cultural – Miguel Salvatore

  • Arte e Cultura Digital em Fortaleza – Paulo Amoreira

  • Pontão da Eco – Ivana Bentes

  • Redes experimentais de Cultura Digital no RJ – Adriano Belisário

  • Orquestra Organismo – Glerm Soares

  • Musa.cc – Alfakini e Oriel Frigo

  • Itaulab, em busca de um modelo de sistema viável – Guilherme Kujawski

  • Autolabs, IP://, Descentro, Nordeste Livre – Ricardo Ruiz

  • FILE – Eliane Weizmann

  • Reverberações – Flavia Vivacqua

  • LabDeBug – Karla Brunet

  • Lucas Bambozzi

  • Marginalia Labs / Projects – André Mintz

  • Nuvem – Bruno Vianna, Cinthia Mendonça, Lula Fleischman

  • Anônimos e Gratuitos – Thiago Novaes

  • Projetos experimentais em rede – Ricardo Brazileiro

  • Laboca – Jarbas Jácome

4.1.2. Questões destacadas:

4.1.2.1. Melhor aproveitamento da infraestrutura pública existente como bem comum

“Quando a gente pensa em laboratórios públicos, penso na capacidade de diálogo entre essas várias experiências. Penso em como o Pontão da ECO poderia conversar com o Instituto Sérgio Motta, como instituição privada, aí pensando no nível de relação. Quando penso na possibilidade de laboratórios experimentais, penso logo na instalação e aproveitamento de infraestrutura pública e gratuita instalada. A gente já tem uma capacidade instalada de equipamento, câmera, banda larga em universidades públicas, como pontos da RNP. É uma capacidade de banda grande, de armazenamento grande, que por falta de projetos ou de uma visão mais ampla não está disponível para esse tipo de experiências. [….] há nas universidades uma subutilização da banda, da logística, nos finais de semana os equipamentos poderiam ser utilizados pelos projetos de extensão, etc.”
(Ivana Bentes, Pontão de Cultura Digital da ECO-UFRJ, Lab Cultura Viva, Coordenadora da ECO-UFRJ).
“Devíamos discutir com as instâncias públicas maneiras de amenizar essa burocracia, para as instituições que atuam e para as pessoas físicas. No LabMIS temos 50% de espaço disponível para ser ocupado. Quero propor uma estratégia de ocupação desses espaços. uma coisa é um projeto de residência que dá um dinheiro X por 3 meses. Mas por que o cara não pode produzir no laboratório se ele tem como ficar em São Paulo e se manter? Tem que poder usar, é dinheiro nosso, de todos nós.”
(Daniela Bousso)
“Talvez nós devêssemos defender mais espaços livres no éter, como é a questão do espectro aberto, ou livre, onde não se possa fazer comércio, e que esse sim seja um motor de inovação e não essa rede de laboratórios livres onde será produzida a inovação. Ao contrário, assegurar espaços públicos no éter, onde a gente possa ter acesso livre aos meios de produção e experimentar, que é isso que a gente faz, gratuita e anonimamente. Vamos valorizar as nossas infraestruturas, ter um pouco mais de autonomia, de política pública no sentido daquilo que é público, que é de todos, e não no sentido de uma rede de representação sobre o público para oportunamente capturar essa representação.”
(Thiago Novaes, Rádio Muda)

 

“A gente tem que discutir o comum para além do público, do privado, nos pontos de cultura, de mídia livre, o que for, o MINC, a UFRJ. O que acontece é que hoje essas instâncias não têm uma política 'do comum' em comum, uma inteligência de massa.”
(Ivana Bentes)
“São muitas as dificuldades com o espaço físico e infraestrutura para montar um laboratório na universidade, é muita burocracia.”
(Karla Brunet, sobre o Labdebug)

4.1.2.2. Perfil dos laboratórios experimentais no Brasil: flexíveis e reconfiguráveis segundo o contexto

“A estratégia de laboratórios funciona melhor se não se restringir a uma área específica. É mais interessante reconhecer o trabalho que já existe, e as possibilidades de criar espaços compartilhados entre diferentes mundos.”
(Felipe Fonseca)
“É importante abrir a participação de outros criadores para além dos artistas expositivos e com carreira amadurecida. A complexidade de tecnologia vai criando uma série de potenciais novos criadores e assim são introduzidos novos tipos de projetos.”
(Giselle Beiguelman)
“Antes desse encontro teve um debate no FISL (Festival Internacional de Software Livre) e trago aqui uns pontos que foram conversados lá: não dá para pensar num modelo único de laboratórios de experimentação que possa ser aplicado em larga escala no Brasil inteiro. Seria um erro você pensar um espaço de experimentação a partir de uma estrutura predefinida. Esse trabalho de mapeamento, de ver o que está já acontecendo, de ver essas redes e formar links entre essas redes é um bom caminho. Já existem essas redes espontâneas que trabalham com cultura digital experimental, seja com apoio do governo ou não. No Rio tem várias iniciativas de pessoas que se reúnem de forma totalmente independente. Essas redes já existem, a questão a pensar é como a política pública pode apoiar isso. Como apoiar também as comunidades de software livre, de desenvolvedores, e essas comunidades aprender a lidar com esses apoios sem se centralizar demais, sem se institucionalizar demais.”
(Adriano Belisário, Pontão da Eco e e-motirõ)
“Trabalhar com arte e tecnologia e cultura pressupõe modelos intercambiáveis, modelos interdisciplinares, e um modelo que é oferecido naturalmente pelos cursos tradicionais não satisfaz essa perspectiva (…) nós vamos testar como é que a gente pode criar itinerários formativos escalonáveis, não lineares, voltados para jovens em situação de periferia, pessoas que têm baixa renda e criar coisas interessantes.”
(Paulo Amoreira, sobre o projeto CUCA Che Guevara, em Fortaleza)

4.1.2.3. Fomento à articulação em rede como condição para a sustentabilidade das experiências

“Estruturas pequenas conseguem realizar projetos principalmente por meio de ações em parceria e colaboração com outras instituições.”
(Giselle Beiguelman, sobre Territórios Recombinantes, uma ocupação artística realizada em parceria do Instituto Sérgio Motta com o SPA das Artes de Recife)
“Sem práticas cotidianas você não tem rede. Você pode montar redes independente de qualquer tipo de fomento. Ao falar em redes, estamos falando em cadeias de dependência, todas essas necessidades envolvem essa rede, por isso falamos nisso e não em 'circuitos independentes'. Não é essa coisa do faça-você-mesmo pensando que as pessoas têm o acesso a todo o conhecimento, mas de compartilhar nessa rede de conhecimento e ter acesso a vários nós dessa cadeia.”
(Miguel Salvatore, sobre o Dubversão sistema de som)
“Quando estamos articulados em rede a gente deve potencializar as ações que têm o máximo possível de autonomia. Se a gente depender muito de recurso vindo do poder público, ele é intermitente, não é contínuo. Atrasa prazos, é muito frágil. Qualquer nuvem escura muda completamente as políticas colocadas em prática e pode inviabilizar os processos. Um dos desafios fundamentais é a gente conseguir resolver essa equação.
(Paulo Amoreira, Secretaria de Cultura Digital de Fortaleza).
“Esse trabalho das redes tem uma potência extraordinária, algumas conquistas permanentes já foram assimiladas dentro das políticas públicas mas também fora desses processos. Então a articulação em rede talvez seja um dos caminhos essenciais para a gente manter esse trabalho vivo.”
(Paulo Amoreira)
“Qual seria o potencial desses laboratórios estarem em rede? Tem muitas instituições como pontos de cultura e outros que não estão interconectadas entre si no sentido de compartilhar a produção que está sendo feita. Vão me falar que existe a rede de servidores livres, mas o que eu digo é que o potencial disso ainda é muito pouco explorado. E ainda estamos muito dependentes da internet.”
(Drica Veloso).

 

4.1.2.4. Laboratórios que estimulem processos de experimentação e produção de conhecimento
para além dos formatos educativos tradicionais

“É preciso inverter a lógica de oferecer cultura (teatro, cinema, saraus) para o jovem, que era o objetivo dessa política pública, e começar a enxergar como pessoas que podem produzir esse conhecimento. Há uma dificuldade de compreensão das políticas públicas de atividades fora do eixo de formação e mais vinculadas a desenvolvimento e investigação. Por isso também a dificuldade de contratação de serviços para esse tipo de experiência.”
(Miguel Salvatore, sobre o Centro Cultural da Juventude de São Paulo)
“Destaque para o LabMIS como modelo de um espaço que não se trata de oferecer acesso às máquinas, mas como espaço de produção de conhecimento, disponibilizando técnicos, programadores, pessoas que ajudam nessa produção de conhecimento. O equipamento é principalmente usado em oficinas e residências. [No caso do LabC] há falta de compreensão da Prefeitura de São Paulo de entender um desenvolvedor de software ou o uso de aparatos técnicos como um trabalho cultural, apenas era possível fazer contratos artísticos. Entendiam que isso aí era um técnico e não podia ser um artista.”
(Miguel Salvatore, LabC e AECID)
“Depois do modelo de dar cursos de audiovisual o Pontão da ECO se reestruturou num modelo de laboratórios de pesquisa e experimentação permanentes (LAPEPS), voltados para a área de vídeo, gráfico e web. Em vez de promover um curso com ementa pré-definida, etc. é um grupo de pessoas que se reúne num lugar e hora determinados. Promover um fluxo aberto de pessoas em vez de uma turma fechada de um curso e dar uma liberdade maior de adaptar o que tá sendo oferecido para as particularidades de cada um. Há uma amplitude de público grande: acadêmico, dos pontos, de movimentos sociais, de ocupação, e também escolas dando aula para ensino médio e fundamental.”
(Adriano Belisário, Pontão da Eco)
“Como poderia funcionar a política pública para as pessoas físicas? Não tem que ser exigido um utilitarismo nos resultados da experimentação com código, não precisa virar necessariamente novos produtos de mercado. É como dizer que toda a política pública de cinema tem que ser para a Globo Filmes, só filme que dá bilheteria. Como pensar em políticas públicas que estimulem isso? Como entender essa pessoa como um livre pesquisador, e políticas que promovam esses encontros? Uma ideia é um edital de intercâmbios e residências de pessoas que estão fazendo essas coisas. Além das políticas de instituições, de pessoa jurídica, que existam políticas de pessoa física, que as pessoas possam se visitar, documentar, numa relação direta do cidadão com o governo.”
(Glerm Soares, Orquestra Organismo)
“Tem que ter sim uma pesquisa que dê de cara no erro, que não leve a lugar nenhum. A gente sabe quanto o erro na arte é fundamental e vale ouro. E se chegar em algum produto tem que poder comercializar, tem que ter esse lado da inovação, a gente aqui não está vendo esse investimento do Estado.”
(Patricia Canetti, Canal Contemporâneo)
“Eles [do governo local] querem que a sociedade que frequenta aquele espaço saia com uma formação técnica, então eles não querem que a gente tenha um espaço onde a sociedade possa frequentar para piração, para conhecer a tecnologia e desenvolver projetos pessoais. Querem um espaço que no final do ano dê números concretos: 100 pessoas formadas como técnicos eletrônicos, programadores, administradores de linux, etc.”
(Allan, sobre o Musa de Joinville)
“O que é experimentação? É uma experiência. O foco da arte experimental não é baseado num resultado. O resultado é a própria experiência do fazer. Como a gente pode transformar isso em política. Como exigir esse foco na experiência e não no produto, na articulação, na competição?”
(Cristiano - UFBA)
“A minha experiência laboratorial mais bem-sucedida foi em 86 coordenando um laboratório na UFMG onde só tinha duas câmeras VHS e mais nada, o que gerou uma situação de pesquisa e aprendizado sem compromisso de resultado, como se exige hoje em muitas iniciativas que se pretendem mais laboratoriais. Um laboratório implica tempo, espaço, equipamento e uma comunhão, ou possibilidade de compartilhamento de tudo isso. É um tripé.”
(Lucas Bambozzi, Arte.mov)
“Em alguns momentos é importante ter oficinas, pois tem uma demanda. Também fazemos residências mais longas, tentamos gerar essa convivência que acaba criando essas várias parcerias possíveis e que se vão desdobrando em outros projetos entre pessoas que estão convivendo juntas.”
(André Mintz, Marginália Lab)

4.1.2.5. Ocupações e intervenções temporárias

“Proposta de Intervenções em espaços não tradicionais e que já têm um grupo de frequentadores - como as lan houses do centro de Recife - com a intenção de aproximar um público mais amplo a projetos de arte e tecnologia, assim como criar instâncias de experimentação e produção de novos projetos.”
(Jeraman sobre o projeto EITA, Porra! – Territórios Recombinantes-PE)
“A gente está pensando em mudar a cara de um laboratório, até para ele não estar fixo num lugar. Por exemplo: o projeto Água é um laboratório, cada expedição no rio Amazonas com artistas é um laboratório. Laboratórios nômades, emergentes, temporários.”
(Jarbas Jácome)
“A gente (arte.mov) precisa do patrocinador, mas tentamos fazer do melhor jeito possível, para que haja liberdade para fazer esses projetos acontecerem. Acho que de novo se a gente conseguir tempo, comprar disponibilidade dos interessados (pra você largar seu freelance por 2-3 meses, você precisa de quanto? vamos nos juntar aqui e fazer um projeto?). Já não é mais equipamento que conta. É essa disponibilidade e vontade de fazer alguma coisa e questões que importam e revelam isso (…) imagino um conceito laboratorial ‘in loco’, que responde ao contexto do lugar, com situações compartilhadas para gerar conhecimento.”
(Lucas Bambozzi, Arte.mov)
“Investigar as possibilidades de desenvolver laboratórios em espaços mais flexíveis e dinâmicos do que as tradicionais instituições como universidades, museus, centros culturais. É importante a construção de espaços que sirvam como referências, que as pessoas possam transitar e saibam que tem coisas acontecendo aí. Talvez seja uma solução mais interessante ligada a pontos de cultura, para servirem como centros de referência um pouco mais fluidos, dinâmicos do que os atrelados a essas instituições.”
(Não identificado)

1O áudio do painel está disponível na íntegra em http://redelabs.org/blog/painel-laboratorios-experimentais-internet-archive (acessado em 14/08/2014)

2A íntegra em áudio do encontro Redelabs está disponível para download em https://archive.org/details/redelabs2010 (acessado em 04/09/2014).